- História da tecelagem -

A tecelagem, técnica de formar um tecido a partir dos fios do urdume e da trama, se desenvolveu de forma simultânea em diversas regiões do mundo, e sua existência está ligada à necessidade do homem de se agasalhar, de se expressar e até mesmo de caracterizar seu pertencimento a um grupo ou região. Alguns arqueólogos afirmam que esta técnica já existia há 32.000 anos. Antes mesmo da era cristã, já se trabalhava o cânhamo no norte da Europa e na Índia. Os países mediterrânicos se tornaram mestres na arte de trabalhar a lã de carneiro, enquanto na China produzia-se seda; na América utilizava-se a lã de alpaca em regiões frias e o algodão nas regiões mais quentes. Os teares já estavam relativamente desenvolvidos, e eram semelhantes aos utilizados hoje em dia.

O que se sabe atualmente sobre a tecelagem já era conhecido há pelo menos 2000 anos, porém é difícil saber exatamente como eram os tecidos produzidos pois, por serem frágeis, não resistiram em bom estado até o nosso tempo. Em 1350 apareceu na Europa a primeira máquina de fiar, que, apesar de mais rústica que a roca conhecida atualmente, representou um grande progresso para o começo do desenvolvimento industrial da tecelagem, pois a produção do fio se tornou maior e mais rápida. Com a crescente preocupação da rentabilidade, também os teares foram se transformando pouco a pouco: durante o século XV, por exemplo, começaram a ser inventados mecanismos para facilitar a passagem da navete¹, diminuindo o tempo de trabalho.

No século XVI, época das grandes navegações, a tecelagem teve grande importância na Europa. Os barcos moviam-se à vela, e portanto era necessário tecê-la. Nessa mesma época, o luxo na Europa estava ligado à posse de tecidos finos: veludo e seda, estampas detalhadas, tecidos com fio de ouro, e bordados com pérolas e pedras preciosas. Para satisfazer esse desejo por tecidos tão finos eram chamados artistas e tecelões das regiões mais distantes, que acabaram por introduzir novas técnicas a partir de seus conhecimentos e segredos.

A partir do século XVIII a tecelagem começou a declinar devido à falta de interesse por trabalhos manuais que demandassem muito tempo. Esta falta de interesse foi causada principalmente pela introdução da mecanização, que seria plenamente desenvolvida no século XIX, época da Revolução Industrial.

Em 1804 o francês Joseph Jacquard desenvolveu uma idéia já existente e fez funcionar o primeiro tear automático, com um princípio que até hoje é utilizado na indústria têxtil. Esse tear foi (e ainda é) o inimigo dos tecelões, pois elimina toda a criatividade do trabalho e não deixa nenhum espaço para o prazer de obter um tecido único e personalizado. Revoltando-se contra essa nova forma de trabalho, os artesãos colocavam seus tamancos para quebrar as máquinas, assim dando origem à palavra sabotagem, pois tamanco em francês é “sabot”.

A expansão cada vez mais rápida da industrialização e o desenvolvimento das técnicas da produção do tecido resultaram em seu barateamento, e dessa forma os tecidos industrializados tomaram o lugar dos tradicionais. Daí seguiu-se uma progressiva decadência da tecelagem manual e na França, não fosse um fato curioso, ela teria desaparecido bem mais cedo. No inicio do século XX um mineiro dos EUA, após ter sua calça rasgada pela quarta ou quinta vez, resolveu utilizar o tecido de uma barraca para fazer uma nova calça, o que resultou num material bem sólido e difícil de costurar. Porém, utilizando fio no lugar do rebite, ficava perfeito. Foi assim que nasceu o jeans, feito de um tecido grosso de algodão azul, chamado índigo, produzido de forma quase artesanal no sul da França. Aumentou-se então a exportação desse tecido para os Estados Unidos, o que manteve o interesse pela tecelagem na França por pelo menos mais uns cinqüenta anos, até que sua produção fosse definitivamente mecanizada.

Na América a tradição se manteve entre os peruanos, os bolivianos e os equatorianos, que nunca abandonaram seus teares. Na Guatemala ainda se tecem lindos tecidos coloridos, especialmente finos, e no México é possível encontrar em algumas cidades famílias tecendo ao ar livre.

No caso do Brasil, assim como em outros países de clima mais ameno, a tecelagem não foi desenvolvida até o momento da chegada de colonizadores portugueses, pois os diversos povos que aqui habitavam não tinham o hábito de se cobrir com tecidos. Com a introdução da tecelagem no Brasil Colônia, passaram a ser produzidos tecidos rústicos de algodão e lã utilizados pelos escravos e pessoas mais pobres. A técnica era rudimentar e incluía o plantio e colheita do algodão que era descaroçado, cardado, fiado e depois o fio era tingido utilizando-se cascas e raízes.

Foi principalmente no século XVIII que a técnica da tecelagem se firmou no Brasil, sobretudo na região de Minas Gerais, onde a extração do ouro estava em seu auge. Passou a ser comum na maioria das casas mineiras a existência de uma roda de fiar e um tear de madeira, substituído depois pelo tear de pedal. As mulheres, à medida que iam tecendo, nomeavam as tramas de acordo com o desenho que se formava (escama, dados, daminha, entre outros) ou com seus próprios nomes. Surgiram assim características próprias da tecelagem brasileira. A cultura da tecelagem em Minas Gerais é bem marcante (muitos irão se lembrar de um tear antigo, hoje não mais utilizado, em que viam a mãe ou a avó tecendo) e não foi inteiramente abandonada. Apesar de bem menos rústicos, os trabalhos em tear manual ainda são conhecidos e valorizados.

Atualmente, em alguns lugares do mundo a tecelagem tradicional ainda é uma necessidade. Já em outros ela foi resgatada ou conservada, e se tornou um meio de se reaproximar de uma vida mais natural e de um trabalho prazeroso, em que o tempo e o modo de seu desenvolvimento dependem da criatividade do próprio tecelão.



¹navete: instrumento de madeira utilizado para passar o fio pelo urdume.